A importância do momento exigia um discurso de belas-letras. Confesso-lhes, porém, faltar-me semelhante dom para alcançar a grandeza do nosso homenageado. Como diria o Ministro Sepúlveda Pertence, há momentos em que a honra e a responsabilidade da missão acabam por inibir o missionário. Escusem-me, portanto, a singeleza das palavras, pelo indescritível instante que estamos a vivenciar.
Peço-lhes licença para saudar o meu Professor Paulo Bonavides, cujas lições, impregnadas de humanismo e consciência cívica, transcendem o contexto das impressões teóricas, ensinando-nos a difícil arte de indignar-se, sem ódios; de ser tolerante, sem transigências; de acrescer ao pensar teórico o senso profundo da realidade.
Não admira o êxito obtido em sua longa jornada: décadas bem vividas, numa luminosa trajetória de homem íntegro e dedicado à causa da democracia; defensor inconteste das liberdades públicas; idealista irredutível, íntegro em sua conduta e firme em suas convicções. Prova insofismável de seu invulgar talento e elevada estatura cultural, predicados que o consagraram para além das fronteiras nacionais, reverenciado por intelectuais de diversos matizes e de muitos povos.
Um cidadão do mundo, no qual resplende a graça da simplicidade e o domínio seguro do Direito, postos a serviço dos princípios indispensáveis à renovação espiritual do regime democrático.
Cortejado para ocupar altos escalões e rendosos cargos, o Professor Bonavides jamais sufragou posições em troca de favores intelectuais. Manteve-se altivo e austero, avesso à omissão que denigre e infenso à venalidade que envergonha, vivendo e agindo de acordo com os seus pensamentos e sua postura ético-social. Poucos denunciaram, com coragem e clareza, a persistência dos males que agridem o Estado Democrático de Direito brasileiro.
O passar dos anos jamais o enfraqueceu. Suas armas são simples: a nitidez moral das atitudes, o apego à verdade e o profundo conhecimento das estruturas jurídicas que estão sendo subvertidas. Com destemor ? ornamento próprio das virtudes da coragem moral e da integridade de caráter ? o Professor Paulo Bonavides soube, como ninguém, apreender a dimensão social das crises que devastam não raro os sistemas de governo, os regimes e as instituições, denunciando com bravura os atentados à democracia, resultantes dos desvios em que é rica a índole dos prepotentes.
Decerto por isso, com a percuciência dos sábios, o insigne Mestre averbou, em lúcida advertência:
"As crises instaladas no País podem minar os alicerces do Estado de Direito, as relações e o equilíbrio entre os Poderes da Soberania. Se não as removermos, breve sobre os destroços da Constituição, o presidencialismo estará escrevendo com o terceiro mandato o epitáfio desta república, que terá perdido o futuro porque não soube, não quis ou não pôde aprender as lições do passado".
Alcancei a verdade proferida pelo Mestre. É preciso zelar pelo passado, cuidar do presente e construir o futuro. De nada serve ao homem lamentar-se do tempo em que vive. O único bem que pode fazer é empenhar-se em melhorá-lo.
O Professor Paulo Bonavides, sem dúvida, com sua existência luminosa, melhorou o nosso País, personificando a celebridade de merecido aplauso e respeito, deferência que só se conquista pelo trabalho, ciência e talento.
Sua vida é uma lição de cidadania e um exemplo para todos nós ? e certamente há de iluminar e fecundar as gerações futuras. Destarte, não lhe convém maior homenagem do que o nosso compromisso de trabalhar para o engrandecimento da Justiça, relembrada a sabedoria do que consignado outrora: "Um Poder Judiciário forte é a primeira salvaguarda da democracia."
Assim pela estima, como pela admiração devotadas, orgulha-se o Fórum Clóvis Beviláqua de ter a passagem do Professor Paulo Bonavides como página memorável de sua história, com o compromisso superior de não a desmerecer, mantendo acesa a chama do entusiasmo edificante e a inspiração modelada pelos valores éticos, humanos e jurídicos da democracia, com a sagração do dito desvanecedor de Machado de Assis: "Esta a glória que fica, eleva, honra e consola".
Muito obrigado.
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