Com base em ofício que recebeu de José Aristodemo Pinotti, professor titular de Ginecologia do Hospital das Clínicas da Universidade de São Paulo, o senador Nabor Júnior (PMDB-AC) conclamou os demais senadores a estudarem de forma mais aprofundada o projeto de lei que possibilita aos hospitais universitários captar recursos provenientes de internações hospitalares de pacientes particulares ou de usuários de convênios.
No ofício, lido por Nabor nesta sexta-feira (29), em Plenário, Pinotti afirma que o atendimento a pacientes privados, em condições diferenciadas, em hospitais públicos é uma prática antiética, que aumenta, de modo perverso, a demanda reprimida de usuários do Sistema Único de Saúde (SUS), já enorme. Ainda segundo o médico, tal prática permite que os professores desses hospitais usem o seu tempo remunerado por salários públicos e outras facilidades e recebam integralmente honorários relativos aos casos atendidos.
Pinotti acrescenta, no ofício, que ¿a prática não se limita e não se limitará jamais a diferenças de hotelaria entre pacientes pagantes e não pagantes nos hospitais públicos¿. Afirma também que há ¿uma profunda desinformação levada ao Senado¿ e destaca que há várias alternativas melhores e éticas para injetar mais recursos nesses hospitais, sem aumentar despesas orçamentárias, atendendo a todos igualitariamente.
Na opinião do médico, ¿essa questão é um verdadeiro divisor de águas: se for aprovada, ela se multiplicará rapidamente e a saúde se tornará, cada vez mais, mercadoria, e cada vez menos, um direito¿.
Em carta ao presidente do Senado, Ramez Tebet, também lida em Plenário por Nabor, Pinotti solicita a retirada de pauta do projeto. Argumenta que não há justificativas consistentes para a utilização de 25% da capacidade dos hospitais universitários por pacientes pagantes, com atendimento privilegiado e diferenciado, quando a demanda reprimida do setor público é crescente e quando há leitos ociosos nos hospitais privados.
Pinotti lembra a Tebet que os hospitais universitários se constituem em única instância de referência, com ações de saúde de maior complexidade para pacientes do SUS. E afirma que, em cinco anos no Hospital das Clínicas de São Paulo, o faturamento com pacientes privados correspondeu a apenas 1,2% dos recursos públicos (orçamento mais faturamento do SUS).
Na presidência da sessão, o vice-presidente do Senado, Edison Lobão (PFL-MA), lembrou que o projeto é de autoria do senador Lúcio Alcântara (PSDB-CE) e que há um requerimento de informações ao Ministério da Saúde sobre o assunto, apresentado pela senadora Heloísa Helena (PT-AL). Segundo Lobão, se a Mesa deferir o requerimento de informações, a tramitação do projeto ficará sobrestada até que chegue ao Senado a resposta do Ministério.
O vice-presidente afirmou compreender as razões de Pinotti e disse que se deve ter um cuidado especial na análise do projeto, para que, ao contrário do que o autor da proposição e os demais senadores pretendem, o Senado não termine prejudicando o sistema de saúde.
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