As novas tecnologias digitais e as modificações do plano de freqüência da televisão foram debatidas nesta terça-feira em audiência pública promovida pela Comissão de Ciência e Tecnologia. O professor da Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul (PUC/RS) Fernando Comparsi de Castro afirmou, durante o encontro, que o Brasil tem capacidade de gerar tecnologia compatível com o mercado internacional.
Castro relatou aos deputados a experiência da PUC/RS, responsável por dois projetos encomendados pelo governo. O primeiro, relativo ao desenvolvimento de um subsistema de modulação inovador para o Sistema Brasileiro de TV digital (SBTVD); e o outro, para o desenvolvimento de um subsistema de antenas inteligentes.
"Os resultados inovadores obtidos até agora estão em processo de patenteamento, devendo a seguir ser colocados em negociação no mercado de tecnologia de ponta internacional", disse o professor. "É a tecnologia tupiniquim dando um 'show de bola'", resumiu, ao explicar que essa tecnologia viabiliza a TV móvel em alta definição, com menor custo operacional.
Cuidados na transição
O deputado Fernando Ferro (PT-PE) - autor, junto com a deputada Mariângela Duarte (PT-SP), do requerimento para realização do debate - disse que a transição do modelo analógico para o digital deve levar em conta as características da TV brasileira, sem resultar em custos e problemas para uma parcela expressiva da população. "É importante desenvolver uma tecnologia mais acessível financeiramente, que permita a troca de equipamentos necessários ao sistema digital e que impeça a dependência externa", ressaltou.
Ferro lamentou a ausência de representante do Ministério das Comunicações na audiência pública, o que teria prejudicado o debate do tema. Ele criticou ainda o fato de o órgão não ter justificado a atitude. Havia sido convidado para representar o ministério seu secretário de Serviços de Comunicação Eletrônica, Joanilson Laércio Barbosa Ferreira. Diante da ausência de Ferreira, a Agência Nacional de Telecomunicações (Anatel) decidiu não enviar representante, pois alegou que é o ministério o principal definidor das regras e políticas na área em discussão.
Excluídos digitais
Para a vice-presidente da Sociedade de Engenharia de Televisão (SET), Liliana Nakonechnyj, o importante é o Brasil não ter, ao longo desse processo de migração tecnológica, "os excluídos da TV digital". A palestrante ressaltou a importância das pesquisas feitas no País, que dão prioridade à tecnologia nacional, mas lembrou que os componentes do sistema têm que ser globalizados, já que os receptores podem se tornar caros ou não acompanhar a evolução mundial.
De acordo com Liliana, a SET criou grupo de trabalho, desde 1994, para estudar a tecnologia digital e as modificações de um plano de freqüência de TV. Ela explicou que a qualidade da imagem é tecnicamente dividida em cinco níveis, sendo que o grau 5 equivale à imagem perfeita. Segundo a representante da SET, para acomodar os canais digital e analógico, pode ocorrer a interferência de grau 3 - quando a imagem já não é tão nítida, principalmente em cidades como São Paulo, que possuem grande quantidade de canais dentro da freqüência para TV.
Adequação de espectro
Durante a audiência pública, o diretor da Telavo Telecomunicações, Jakson Alexandre Sosa, defendeu a necessidade de adequação do espectro magnético existente ao novo conceito digital de TV. Sosa apresentou o caso que classificou como mais difícil, o da cidade de São Paulo - onde o congestionamento do espectro de freqüência para TV é grande. Os chamados espúrios (interferências) entre canais adjacentes prejudicam o plano de freqüência de canais digitais e analógicos, explicou.
O dirigente da Telavo observou que o Decreto 4901/03, relativo à implantação do SBTVD, prevê um período inicial de cinco anos de convivência dos dois sistemas (analógico e digital) até acontecer a migração - para o sistema digital - de todo o parque instalado.
De acordo com Sosa, na Itália, na Argentina e nos Estados Unidos foram utilizados filtros que permitem a acomodação de canais analógicos e digitais. A solução desenvolvida pela RF Telecomunicações, de propriedade de Sosa, foi a criação de um filtro de rejeição de espúrios que, segundo ele, apresentou uma série de vantagens, principalmente em locais como São Paulo, com alta densidade espectral. "De setembro de 2001 até hoje, foram gastos com esse projeto R$ 4 milhões", informou, ao ressaltar que os recursos vieram da iniciativa privada.
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Reportagem - Simone Salles
Edição - Sandra Crespo
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