Em depoimento nesta terça-feira no Conselho de Ética e Decoro Parlamentar , o deputado Josias Gomes (PT-BA) afirmou que se sente traído pelo ex-tesoureiro nacional do PT Delúbio Soares. "Eu confiava plenamente em que estava recebendo recursos legais, do caixa do partido", disse, ao confirmar que recebeu R$ 100 mil para pagar despesas de campanha do PT baiano, em 2002.
Gomes informou que recebeu os recursos em duas parcelas de R$ 50 mil, sendo a primeira na sede nacional do PT em Brasília e a segunda na agência do Banco Rural do Brasília Shopping, por recomendação de Delúbio Soares.
O deputado disse ainda que, antes das denúncias pela imprensa, nunca ouvira falar do suposto "mensalão". Ele ressaltou que toda sua carreira política e vida pessoal sempre foram pautadas pela "ética e retidão".
Suspeita
Durante o depoimento, o deputado Jairo Carneiro (PFL-BA) questionou a informação de que o acusado não assinara recibo no Banco Rural com o nome da SMPB Propaganda como fornecedora dos recursos. Josias Gomes respondeu que, ao receber os R$ 50 mil na agência do Banco Rural, assinou apenas o valor recebido e a data em uma cópia de sua carteira parlamentar. "Eu tinha tanta certeza de que os recursos eram legais que, no ato do recebimento, apresentei minha carteira parlamentar."
Josias Gomes informou ao Conselho de Ética que já solicitou perícia grafotécnica à Polícia Federal para examinar a autenticidade do documento. "Minha assinatura confere, mas não me lembro de ter assinado tal documento e desconfio de que houve montagem posterior da assinatura que aparece no recibo do qual consta a SMPB Propaganda com fonte de recursos", disse.
O advogado do deputado Josias Gomes (PT-BA), Márcio Silva, enfatizou que até agora só foram apresentadas cópias do recibo. "Se não há documento original, não é possível acatar o recibo como prova. Reforça-se assim a suspeita de montagem da assinatura original do parlamentar na cópia do recibo apresentado."
João Paulo Cunha
Na mesma reunião, foi ouvida a secretária do ex-presidente da Câmara João Paulo Cunha (PT-SP), Silvana Japiassú. Ela declarou que Marcos Valério Fernandes de Souza tentou várias vezes falar com João Paulo, mas não foi recebido por causa da agenda cheia do então presidente da Casa. Marcos Valério é apontado como operador do suposto esquema conhecido como "mensalão".
Japiassú reforçou ainda que nunca percebeu nenhuma evidência de tráfico de influência por parte de João Paulo. "Ele sempre agiu com honestidade e transparência", enfatizou. A secretária confirmou ao relator do processo, deputado Cezar Schirmer (PMDB-RS), que foi duas vezes ao Banco Rural a pedido de João Paulo, mas para efetuar pagamento de contas vencidas. Informou ainda que a esposa do deputado, Márcia Regina Cunha, também esteve no banco, mas apenas uma vez e pelo mesmo motivo.
Ao final do depoimento, o advogado do deputado João Paulo, Alberto Toron, anunciou que vai fazer a complementação da defesa em outra ocasião.
Prorrogação e recesso
O presidente do Conselho de Ética, deputado Ricardo Izar (PTB-SP), anunciou que vai pedir a prorrogação preventiva de 12 processos por quebra de decoro que tramitam no órgão. Além de 11 deputados , o pedido inclui o processo contra o vice-líder do PFL Onyx Lorenzoni (RS). A prorrogação só não será solicitada para o processo contra a deputada Zulaiê Cobra (PSDB-SP), que é mais recente.
Izar também vai pedir ao presidente da Câmara mudança no Regimento Interno para que o conselho possa trabalhar durante o recesso parlamentar. O presidente do conselho espera concluir três processos até o final deste mês: dos deputados Roberto Brant (PFL-MG), Pedro Corrêa (PP-PE) e João Paulo Cunha (PT-SP). "Se possível, vamos terminar nesta semana o de Roberto Brant." O relator do processo de Brant, deputado Nelson Trad (PTB-MS), diz que já entregou o relatório e o voto à presidência do conselho, e que falta agora a leitura e votação, mas ainda não há data marcada.
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Reportagem - Antonio Barros
Edição - Regina Céli Assumpção
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