A Comissão de Direitos Humanos e Minorias realizou audiência pública nesta terça-feira para discutir o papel da capoeira no combate ao racismo. A capoeira foi criada no Brasil há 300 anos pelos escravos africanos que fugiam das senzalas. Usada como forma de defesa, era mal vista, encarada como sinônimo de briga e desordem. Hoje, a capoeira é praticada em mais de 160 países. O debate faz parte da programação da III Jornada África-Brasil - evento que comemora o Dia da Consciência Negra (20/11).
A fundadora do Instituto Nzinga de Capoeira D'Angola, Rosângela Araújo, defendeu durante a audiência a difusão da história de proibição e perseguição que a capoeira sofreu no país. Segundo ela, dos cerca de 6 milhões de pessoas que praticam capoeira no Brasil, mais da metade não tem conhecimento profundo sobre o tema. "Formar pessoas para o entendimento da prática da capoeira ou da educação corporal para combater exatamente essas distorções que a indústria do entretenimento hoje faz. Sobretudo sobre o corpo negro. Então a idéia é devolver para as pessoas a propriedade do seu próprio corpo, o entendimento e a aceitação do seu próprio corpo. E aí a capoeira D'Angola tem funcionado como instrumento super importante nesse sentido, porque ela traduz muito a nossa alma, na coisa do molejo, do balanço, da música, do ritmo."
A fundadora do Instituto Nzinga de capoeira critica o que ela chamou de indústria de massificação da capoeira, em que os valores mais importantes da modalidade foram esvaziados. Para Rosângela Araújo, a capoeira é muito mais do que uma dança ou um esporte; é toda a história do negro que veio para o Brasil.
Projeto Ginga Brasil
Representando a secretaria especial de políticas de promoção da igualdade racial, Benedito Cintra, explicou projeto em discussão pelo Governo, voltado para a capoeira, chamado Ginga Brasil. Segundo Cintra, Um dos objetivos do projeto é garantir financiamento para pesquisas sobre capoeira. "Já seria suficiente para tirar a capoeira da marginalidade onde ela se encontra. Ou seja, a relação historicamente estabelecida entre Estado e capoeira foi sempre muito ruim, no sentido até de penalizar a capoeiragem. Eu acho que assim, nós estamos dando passos importantes e a idéia do Ginga Brasil é ver qual é o melhor formato na construção de políticas públicas para a valorização e o fortalecimento da capoeira".
O deputado Luiz Couto (PT-PB), vice-presidente da comissão de direitos humanos, elogia a iniciativa e considera a proposta de discutir o papel da capoeira no combate às desigualdades raciais o início de um conjunto de ações que podem ser adotadas para diminuir o racismo no país. "Essa é a preocupação básica: que nós eliminemos de fato e de direito a questão do racismo e que ainda é muito grande no nosso país. Essa audiência pública trouxe a contribuição aqui, ainda há muita coisa para ser discutida, para ser debatida, mas eu acho que é um pontapé inicial que a Câmara dá".
Lançamento de revista
Antes dos debates, foi lançada a revista "Toques D'Angola", Instituto Nzinga da Capoeira Angola. Para Haroldo Guimarães, editor da revista, ela não se limita a descrição de fatos do universo da capoeira, mas tem o objetivo de difundir valores como os da capoeira Angola, dos afro-descendentes e da cultura negra em geral.
Reportagem Danielle Popov
Edição Paulo Cesar Santos
Link para a página original
0 pessoas comentaram a notícia "Debate avalia papel da capoeira no combate ao racismo"
Deixe o seu comentário
* Os textos publicados neste espaço são de responsabilidade única de seus autores e podem não expressar necessariamente a opinião do Direito 2.