A embaixadora do México Cecília Soto reconheceu nesta quarta-feira, durante audiência pública na Comissão de Direitos Humanos, a incapacidade da polícia da Ciudad de Juárez em resolver os assassinatos de 328 mulheres ocorridos nos últimos dez anos.
Ela explicou que a cidade, na fronteira com o Texas (EUA), registra uma grande incidência de tráfico de drogas. Para tentar resolver esses assassinatos e o tráfico de drogas, os governos do México e Estados Unidos assinaram um acordo de cooperação com o FBI para o treinamento de policiais mexicanos.
Cecília Soto reconheceu ainda que a polícia local tratou o caso com preconceito de gênero, não dando a importância que o assunto merecia por se tratar de mulheres. "O governo do nosso país se envergonha dessas mortes, que até hoje não foram resolvidas", afirmou a embaixadora.
Antes da audiência pública, foi exibido o documentário "Señorita Extraviada", que mostra depoimentos dos familiares das vítimas e de testemunhas do caso. No vídeo, uma das testemunhas conta que viu dentro de uma delegacia de polícia fotografias que mostravam as jovens sendo estupradas por vários homens. Segundo ela, os homens riam e se divertiam com o sofrimento das vítimas, que tinham pedaços dos seios arrancados a dentada. A testemunha conta ainda que viu fotos com corpos de jovens sendo queimados. O vídeo mostra o trabalho da polícia resgatando algumas ossadas e a dificuldade em identificarem os cadáveres.
ESPECULAÇÕES
A representante da ONG Ações em Gênero, Cidadania e Desenvolvimento, Rita Segato, lamentou o fato de as autoridades do México não terem conseguido esclarecer esses assassinatos. Segundo ela, existem várias especulações, como ritual satânico, tráfico de órgãos e ações de traficantes. "Não sabemos quem são os autores desses crimes bárbaros, nos quais as vítimas, a maioria jovens, eram estupradas e queimadas", frisou. Na sua avaliação, existe um pacto de silêncio e um acordo inviolável entre os autores dos crimes.
A coordenadora do Comitê Latino-Americano e do Caribe para a Defesa da Mulher, Valéria Pandjiarjian, defendeu que seja traçada uma estratégia internacional para tentar solucionar esses assassinatos. Para ela, sem ajuda de outros países, o México não vai conseguir desvendar esses crimes.
A coordenadora disse que os criminosos estão ameaçando e matando familiares e advogados das vítimas.
O diretor do Departamento de Direitos Humanos do Itamaraty, Tadeu Valladares, disse que o Brasil e o México têm problemas semelhantes de violação dos direitos humanos. Segundo ele, os dois países são os que mais se esforçam na América Latina para resolver o problema.
Com cerca de 1,2 milhão de habitantes, a Ciudad de Juárez, localizada no Estado de Chihuahua, concentra um grade pólo industrial, sendo a maioria das empresas dos Estados Unidos, resultante de negociações dentro do NAFTA (Acordo de Livre Comércio da América do Norte).
Reportagem - Mauren Rojahn
Edição Ana Felícia
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