Uma das primeiras comprovações da CPI dos Grupos de Extermínio no Nordeste foi de que a região está entregue a quadrilhas de pistoleiros. A afirmação é do relator da comissão parlamentar de inquérito, deputado Luiz Couto (PT-PB), com base nos depoimentos prestados à comissão. O relator lembrou que todas as testemunhas e convidados ouvidos pelos parlamentares denunciaram a conivência ou, até mesmo, o envolvimento direto de autoridades locais, com grupos criminosos.
O relator afirma que as investigações demonstram que pessoas que deveriam garantir o bem-estar da população determinam quem vive e quem morre. Nas audiências públicas realizadas pela CPI, foi constatado também que há uma rede de matadores de aluguel que trabalha com tabela de preço, onde cada vítima tem um valor estipulado. Para matar um vereador, por exemplo, os grupos cobram cerca de R$ 10 mil; um religioso, custa até R$ 30 mil; e se a vítima for um grande empresário ou político famoso, o valor do serviço pode passar de R$ 60 mil. A maioria das vítimas, no entanto, segundo o relator, são trabalhadores rurais, posseiros, sindicalistas, moradores de rua ou menores infratores. Paraíba, Pernambuco, Ceará e Bahia encabeçam a lista dos estados com maior número de crimes com características de extermínio.
INVERSÃO DE VALORES
Para o deputado Luiz Couto, que está sob proteção federal em função de ameaças de morte, as informações levantadas pela CPI representam a "triste realidade de uma região, onde os pistoleiros são respeitados como heróis e as vítimas são consideradas pessoas dispensáveis à sociedade". O parlamentar acrescenta que a pior constatação é a realidade da existência dos grupos de extermínio, da pistolagem, do crime organizado, agindo, não apenas para eliminar pessoas, mas, também, com o tráfico de drogas e de armas e na lavagem de dinheiro. "É preciso que nós possamos ter uma atuação urgente para acabar de vez com a ação desse crime organizado, que atua em todo Brasil, mas que, hoje, age principalmente na região Nordeste".
ENVOLVIMENTO DE POLICIAIS
Outra situação constatada pela CPI foi a quantidade de policiais envolvidos com a pistolagem. Segundo estudo divulgado pela Universidade Federal de Sergipe, em outubro passado, baixos salários, falta de incentivos públicos e até mesmo ordens de oficiais superiores têm levado cada vez mais agentes de polícia ao crime. De acordo com o professor Ricardo de Paula, idealizador da pesquisa, o estudo traça o perfil do pistoleiro no Nordeste - homens que, na maioria das vezes, possuem residência fixa e ocupam cargos públicos em cidades no interior dos estados. "Mas, um dado interessantíssimo para se investigar a pistolagem é de onde provêem as armas para os matadores. A maior parte das mortes que acontecem no estado do Ceará, por exemplo, são praticadas com pistolas de uso restritivo das polícias Civil, Militar e Federal. Geralmente, o calibre preferido pelos matadores cearenses é calibre 44.9 milímetros".
FORÇA-TAREFA FEDERAL
Todos os depoimentos, documentos, dossiês e relatórios apresentados aos parlamentares pelos 24 convidados ouvidos na comissão, segundo o deputado Luiz Couto, só apontam uma alternativa para colocar na cadeia pistoleiros e mandantes de crimes de extermínio: a intervenção de força-tarefa federal, dado o grande número de denúncias de envolvimento de integrantes das organizações policiais e das esferas dos poderes públicos regionais.
Já foram encaminhados ao Ministério da Justiça pela comissão, três pedidos para instalação de grupos especiais, mas apenas a Paraíba teve seu pedido aprovado. Os outros dois estados aguardam autorização. Os trabalhos da CPI do Extermínio no Nordeste serão retomados no dia 15 de fevereiro do próximo ano, quando começam as audiências públicas nos estados.
Reportagem - Giulianno Cartaxo
Edição - Regina Céli Assumpção
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