A CPI da Pirataria ouviu nesta quarta-feira a auditora aposentada da receita federal, Norma Regina Cunha. Ela foi presa sob a acusação de pertencer a uma das maiores quadrilhas de falsificadores de cigarros, entre outros crimes, juntamente com policiais e juízes.
A CPI da Pirataria decidiu que vai convocar novamente a auditora porque seu depoimento não atendeu as expectativas dos integrantes da comissão. Na próxima vez, ela virá como acusada e não como testemunha.
FALTOU COLABORAÇÃO
O deputado Júlio Semeghine (PSDB-SP) afirma que Norma Regina foi convidada porque estava disposta a colaborar, fazendo revelações e dando detalhes da quadrilha. No entanto, ela adotou uma linha de depoimento em que não trouxe informações, e tentou durante todo o depoimento proteger seu ex-marido, o juiz João Carlos da Rocha Matos, que também estaria envolvido em um esquema de venda de sentenças judiciais.
O deputado diz que a depoente foi muito bem instruída pelos seus advogados para que saísse da CPI como vitima.
CELSO DANIEL
Ao ser questionada pelo vice-presidente da CPI, deputado Júlio Lopes (PP-RJ), sobre o fato de fitas gravadas sobre o caso do assassinato do prefeito Celso Daniel, de Santo André, terem sido encontradas em seu apartamento, Norma Regina começou a chorar. Disse que tinha o direito de ficar calada, que preferia não tocar no assunto e que corre risco de vida.
ATAQUES DE FÚRIA
A depoente disse ainda à CPI que tinha um relacionamento conturbado com o juiz João Carlos da Rocha Matos, com quem esteve casada entre 1988 e 1998. Por duas vezes, ela teria pensado na hipótese de pedir a interdição do juiz. Segundo Norma, Rocha Matos tinha ataques de fúria, nos quais teria agredido o próprio filho e tentado matá-la.
A auditora afirmou que sua maior preocupação hoje é com o filho, que tentou o suicídio aos 7 anos de idade, e revelou que o juiz Rocha Matos também é filho de suicida. Em 1998, ela teria se separado dele, mas os dois voltaram a conviver na mesma casa a pedido do filho. A depoente garantiu que não tinha conhecimento dos atos ilícitos do ex-marido e que passou a gravar as fitas que o comprometem como forma de se proteger.
CONTAS BANCÁRIAS
Em outro trecho do depoimento, Norma não soube explicar as oscilações e a movimentação de sua conta bancária. Em 1998, a movimentação foi de R$ 156 mil; em 1999, subiu para R$ 872 mil; em 2000, baixou para R$ 246 mil; em 2001, voltou a subir para R$ 712 mil; em 2002; a movimentação foi de R$ 156 mil; e neste ano já havia chegado a R$ 201 mil.
O relator da CPI, deputado Josias Quintal (PMDB-RJ), pediu explicações para essas movimentações. Norma não respondeu e disse que suas declarações de renda estavam sendo analisadas pela Polícia Federal e pela CPI.
DADO NOVO
O deputado Júlio Lopes afirma que, embora o depoimento não tenha atendido aos anseios dos integrantes da CPI, trouxe um dado novo. Segundo ele, a CPI não sabia do desequilíbrio do juiz, nem que a relação do casal era conturbada.
Além disso, apesar de Norma ter negado que o ex-marido tinha ligação com o comerciante chinês Law Kin Chong, dono de um shopping de contrabando desbaratado pela Operação Anaconda, o parlamentar afirma que já existem indícios de ligação entre o comerciante chinês e o juiz. "Rocha Matos levou o filho para um jantar com chinês", afirmou Lopes. "Ninguém leva um filho para um jantar quando não tem intimidade com a outra pessoa".
FRUTO DE TRABALHO
Questionada pela deputada Vanessa Graziottin (PCdoB-AM), Norma Regina afirmou que os US$ 550 milhões encontrados em sua casa foram o resultado de uma vida inteira de trabalho. Esse dinheiro seria fruto da venda de cinco imóveis no exterior, em 1992.
Vanessa Graziottin disse que tem uma vida simples, apesar de ser parlamentar há 16 anos, e questionou como é possível a uma pessoa sem grandes posses acumular R$ 1,5 bilhão. Norma Regina garantiu que sua renda está declarada no Imposto de Renda e que o ex-marido não tinha conhecimento pleno de sua situação financeira.
Sobre as fitas com conversas comprometedoras com o juiz João Carlos, encontradas em seu apartamento, Norma Regina diz que fez as gravações porque se sentia insegura e queria se proteger.
Reportagem - Carmem Fortes
Edição - Ana Felícia
Link para a página original
0 pessoas comentaram a notícia "CPI da Pirataria vai convocar auditora novamente"
Deixe o seu comentário
* Os textos publicados neste espaço são de responsabilidade única de seus autores e podem não expressar necessariamente a opinião do Direito 2.