O maior desafio a ser vencido pelas vítimas da Aids é o preconceito e a discriminação social, reações geradas pelo desconhecimento acerca da doença e pela inexistência de uma campanha contínua de divulgação de informações. A avaliação é do coordenador do Grupo de Incentivo à Vida de São Paulo, Gil Casimiro, 37 anos, há sete portador do vírus HIV. Romper os estigmas de grupos de risco e levar o assunto a uma discussão pela sociedade foram algumas de suas sugestões durante o seminário "Preconceito e discriminação contra as pessoas que vivem com HIV e Aids", realizado hoje na Câmara.
O encontro, promovido pela Comissão de Direitos Humanos, Ministério da Saúde, com apoio do Ministério da Justiça, Unesco e Unaids, reuniu técnicos, políticos e gestores de entidades civis voltadas para o tema.
GOVERNO LULA
Segundo o deputado Nelson Pellegrino (PT-BA), que presidiu a abertura dos trabalhos, iniciativas do atual governo, como baratear o preço do coquetel de medicamentos contra Aids e oferecer atendimento personalizado aos pacientes, deverão ter prosseguimento no próximo governo. Para ele, o programa brasileiro de combate à Aids é ousado, vitorioso e referência mundial, especialmente na política de tratamento na rede pública de saúde. "Eu não tenho dúvida de que o próximo governo não só manterá o programa, mas como também vai promover avanços. A meta é ampliar cada vez mais o número de atendimentos e trabalhar na prevenção, para que novas pessoas não venham a ser infectadas".
SOCIALIZAÇÃO
O programa brasileiro tem 19 anos e está baseado na prevenção, na assistência e na defesa dos direitos humanos. "Apesar dessas medidas, estamos na terceira geração do programa, que é o da integração do soropositivo à sociedade. Provar que, uma vez medicado, o portador do vírus pode trabalhar, ter lazer e gozar do respeito e da cidadania inerentes a qualquer cidadão brasileiro".
Para o coordenador do Programa de Combate à Aids do Ministério da Saúde, Paulo Roberto Teixeira, este será o grande passo a ser dado no combate à doença - embutir na sociedade a certeza de que soropositivos podem se sociabilizar e produzir. Ele afirmou que alertar sobre os riscos de transmissão, eliminar a idéia dos grupos de risco, oferecer informações e baratear ainda mais o coquetel são preocupações permanentes do Ministério, que divulga nesta sexta-feira (29) os números oficiais da Aids desde 1980 até abril deste ano. De acordo com Teixeira, a epidemia está decrescendo, mas ainda é alto o número de pessoas que se infectam.
"Até agora temos um registro de 600 mil manifestações do vírus, sendo 220 mil casos comprovados e 110 mil óbitos. Os dados mais detalhados serão apresentados nesta semana, quando analisaremos até que ponto as ações discriminatórias no trabalho, na escola e até nos lares têm contribuído para o crescimento dos índices, especialmente entre as mulheres, grupo de maior vulnerabilidade", explicou Paulo Roberto Teixeira. Ele acrescentou que o fato da Campanha da ONU para 2003 ser centralizada no tema preconceito é seu grande mérito. A campanha será lançada oficialmente em primeiro de dezembro, Dia Mundial de Luta contra a Aids.
PAÍSES DESENVOLVIDOS
O representante da Unesco no Brasil, Carlos Alberto Vieira, disse que os direitos humanos, especialmente das minorias, aí incluídos os soropositivos, são diariamente violados, não só nos países em desenvolvimento, mas principalmente nos desenvolvidos, onde o nível de esclarecimento é maior.
"As desigualdade sociais provocam o preconceito, a injustiça e a punição aos pobres. Mas em um país em que a miséria praticamente inexiste, não há justificativa razoável para o preconceito", ponderou. "Nossas conquistas neste sentido têm sido pequenas, mas valiosas, por isso comemoramos todos os resultados positivos".
VÍTIMA
O militante do Grupo de Incentivo à Vida de São Paulo, Gil Casimiro, demitido do trabalho quando revelou ser soropositivo, testemunha formas em que o preconceito ainda se manifesta. "Eu costumo dar palestras em universidades, em empresas privadas e as perguntas são as mais óbvias possíveis, como "Aids pega no vaso sanitário?".
Para ele, o maior desafio é fazer com que as campanhas de esclarecimento sobre o assunto não ocorram apenas no período de Carnaval, mas que se estendam no resto do ano, fazendo com que as pessoas possam ter mais acesso às informações e, conseqüentemente, que o preconceito diminua.
O seminário "Preconceito e discriminação contra pessoas que vivem com HIV e Aids está sendo realizado no auditório do Anexo IV. Neste momento, está sendo debatido o tema "Educação contra o preconceito e a discriminação" e às 16 horas será feito o lançamento da campanha 2003 da Organização Internacional do Trabalho (OIT) com o tema "Discriminação". Em seguida, será entregue o prêmio Escola pela Unesco a instituições que desenvolveram trabalhos relacionados ao tema.
Por Patrícia Araújo e Márcia Brandão/ DA
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