A energia produzida por grandes usinas hidrelétricas, sistema que responde por mais de 90% da energia gerada no País, gerou polêmica durante o seminário "A crise do modelo do setor elétrico brasileiro - Construir um outro modelo é possível", que ocorreu na manhã de hoje.
Durante o evento, técnicos, sindicalistas, parlamentares e representantes de movimentos sociais debateram as implicações ambientais, econômicas e sociais do modelo em vigor no setor elétrico.
DISCORDÂNCIA
Participantes criticaram o sistema hidrelétrico atual, baseado em grandes usinas construídas a partir de barragens, e propuseram sua substituição por modelos que lancem mão de sistemas à base de energia eólica, térmica, solar, de biomassa ou hídrica, desde que gerada por pequenas centrais hidrelétricas (PCHs).
Outros defenderam a manutenção do modelo atual, com mudanças que o aprimorem nos aspectos ambiental e social, com ênfase na redução de impactos e soluções para as populações que são despejadas em razão das grandes inundações necessárias à instalação de usinas hidrelétricas.
A discordância manifestou-se já na abertura do evento. "Não é possível continuar com esse modelo de barragens, que desestrutura comunidades e que agora avança sobre a Amazônia, ameaçando as populações indígenas e a biodiversidade", advertiu Cirineu da Rocha, do Movimento dos Atingidos por Barragens (MAB), que representa cerca de um milhão de pessoas desalojadas por aquelas construções.
"Não somos contra as barragens nem as usinas nucleares, desde que sejam feitas com segurança, com os menores impactos possíveis e que os atingidos sejam realocados e indenizados", contra-argumentou o secretário de energia da Federação Nacional dos Urbanitários (FNU), Mauro Martinelli. Ele lembra que o Brasil tem ainda grande potencial hídrico para produção de energia, do qual apenas 24% são aproveitados. O mesmo argumento foi exposto pelo diretor da Associação de Empregados da Eletronuclear, Gunter Korte. "O modelo atual é correto, só precisa de correções. Grandes barragens permitem transferir energia de um ponto a outro do País, pelo sistema de transmissão interligada de que dispomos. O que não pode acontecer são os impactos social e ambiental, que são seqüelas injustificáveis", disse.
Mas para Roberto Araújo, da ONG Ilumina, não há mais necessidade de grandes alagamentos, porque o sistema já teria capacidade suficiente de armazenar energia. O ideal, segundo o técnico, seria investir em usinas médias, PCHs e minibarragens. "A questão energética deve ser analisada a partir do enorme problema social brasileiro", opinou.
PRIVATIZAÇÃO
A crise que gerou o racionamento de energia elétrica no País e sua relação com a privatização de empresas do setor também foi alvo de críticas dos participantes. Eles afirmam que a energia elétrica não pode ser tratada como uma mercadoria qualquer, "uma commodity", porque é essencial ao bem-estar da população.
Para José Drummond Saraiva, que também falou em nome da FNU, a privatização de parte do setor elétrico provocou "uma total desestruturação do processo de fornecimento de energia e de sua utilização racional". Segundo ele - que convocou os participantes a promoverem ações de resistência à privatização da Companhia Paranaense de Energia (Copel) -, isso ocorre porque a lógica da privatização é tratar a energia como bem de mercado, o que teria atirado o País na crise atual. "Não sairemos dela em menos de dois anos", prevê Saraiva, que se declarou preocupado com a manutenção das empresas estatais geradoras no Plano Nacional de Desestatização.
Já o professor Carlos Vainer, da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), chamou a atenção para a necessidade de a discussão superar o dilema privatismo x estatismo. O professor propõe um "pacto energético" para a construção de um novo modelo, com ampla discussão na sociedade. Ele alerta para a "chantagem" gerada pela crise do racionamento, que estaria sendo usada como pretexto pelo Governo para a privatização. Ele também criticou a "nostalgia" dos que defendem o retorno ao modelo das grandes hidrelétricas, construído na década de 70. Com base em relatório elaborado pela Comissão Mundial de Barragens, órgão do Banco Mundial, Vainer citou dados com os quais contestou os "mitos" do modelo hidrelétrico - entre eles, o de que esse tipo de energia seria mais barato e não poluente. Vainer contrapôs a essa idéia o fato de que as grandes barragens custam mais do que o previsto e produzem menos do que o planejado, e que sua implantação causa impactos ambientais "enormes e irreversíveis", agravando o efeito estufa. Além disso, lembrou que a construção de hidrelétricas provocou, ao longo de 20 anos - até o final dos anos 80 -, o deslocamento de 80 milhões de pessoas, uma das maiores migrações humanas do mundo, e o empobrecimento das regiões em que se instalaram.
Por Christian Morais/ PR
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